Escolha de sentido- Por Matheus Hirata

Um Ensaio sobre a Vontade de Sentido em Viktor E. Frankl

 

O ser humano tem sempre a liberdade de escolher a postura que adota perante os condicionamentos e circunstâncias que a vida lhe apresenta. É o sentido de vida que justamente motiva o ser humano, que o ajuda a superar seus condicionantes — liberdade da vontade. Logo, podemos lembrar a frase de Nietzsche tão reforçada por Frankl (2008): “quem tem por que viver aguenta quase todo como” (p. 101). Para ilustrar, basta lembrar o seu relato do campo de concentração onde aqueles que tinham um sentido para sua existência conseguiam suportar o sofrimento agudo, os horrores presentes, em vez de desistir da vida. Por outro lado, “há um sentido para a vida — isto é, um sentido pelo qual o homem sempre esteve a buscar [vontade de sentido] — e que o homem tem a liberdade de engajar-se, ou não, na realização desse sentido” (Frankl, 2011, p. 89). Existe um sentido de vida potencial em todas as circunstâncias da vida, ela nunca deixa de oferecer sentido (Frankl, 2008).

A busca do indivíduo por um sentido é uma força primordial em sua vida, e não uma “racionalização secundária” de impulsos instintivos. Esse sentido é exclusivo e específico, uma vez que precisa e somente pode ser cumprido por aquela determinada pessoa. Somente então esse sentido assume uma importância que possa satisfazer à sua própria vontade de sentido. Alguns autores sustentam que sentidos e valores são “ainda mais que mecanismos de defesa, formações reativas e sublimações”. Mas, pelo que toca a mim, eu não estaria disposto a viver em função dos meus “mecanismos de defesa”. Nem tampouco estaria pronto a morrer simplesmente por amor às minhas “formações reativas”, O que acontece, porém, é que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores.

Temos que nos resguardar contra a tendência de tratar valores como se fossem mera auto-depressão da própria pessoa humana. Isto porque logos, ou seja, “sentido”, não é apenas algo que emerge da existência em si, mas constitui em si mesmo algo que confronta a existência. Caso o sentido a ser cumprido pela pessoa humana realmente não passasse de mera expressão do eu (self), ou nada mais fosse que uma projeção dos seus anseios (wishfuI thinking) ele perderia de imediato o seu caráter de exigência e desafio; o sentido não mais poderia chamar e engajar a pessoa. Isto vale não só para a ‘assim chamada sublimação dos assim chamados impulsos instintivos, mas ainda para aquilo que C. J. Jung chamou de “arquétipos” do “inconsciente coletivo”, uma vez que estes também seriam autoexpressões, ou seja, da humanidade como um todo. Isto é válido também para a tese de alguns pensadores existencialistas, de que os ideais do ser humano nada mais são que suas próprias invenções. De acordo com Jean-Paul Sartre é o ser humano que se inventa a si mesmo, ele é quem concebe a sua própria “essência”, ou seja, aquilo que ele é essencialmente, incluindo o que ele deveria ser ou tornar-se. Penso, entretanto, que o sentido da nossa existência não é inventado por nós mesmos, mas é, antes, detectado por nós. Uma porta precisa ser puxada, e a outra, empurrada. Se digo, agora que a pessoa precisa ser puxada por valores, quero dar a entender implicitamente que isto sempre envolve liberdade: a liberdade do ser humano de optar entre aceitar ou rejeitar uma oferta, isto é, de cumprir uma potencialidade de sentido ou, então, pô-la a perder.

O ser humano não é uma coisa entre outras; coisas se determinam mutuamente, mas o ser humano, em última análise, se determina a si mesmo. Aquilo que ele se toma – dentro dos limites dos seus dons e do meio ambiente – é ele quem faz de si mesmo. Nos campos de concentração, por exemplo, nesse laboratório vivo e campo de testagem que foi, observamos e testemunhamos alguns dos nossos companheiros se portarem como porcos, ao passo que outros agiram como se fossem santos. A pessoa humana tem dentro de si ambas as potencialidades; qual será concretizada, depende de decisões e não de condições. Nossa geração é realista porque chegamos a conhecer o ser humano como ele de fato é. Afinal, ele é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; mas ele é também aquele ser que entrou naquelas câmaras de gás de cabeça erguida, tendo nos lábios o Pai Nosso ou o Chemá Yisrael.

Matheus Hirata

 

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