Logoterapia simplificada

Primeira parte – O Homem em Busca de um Sentido – Livro por Viktor Frankl

A vontade de sentido

A busca de sentido por parte do Homem é a motivação essencial da sua vida e não uma «racionalização secundária» de impulsos instintivos.

O sentido é único e específico na medida em que tem de ser preenchido, e pode ser preenchido somente por ele. Só então assume um significado capaz de satisfazer a sua própria vontade de sentido.

 

A frustração existencial

A vontade de sentido do Homem também pode ser frustrada, caso no qual a logoterapia fala de uma «frustração existencial».

 O termo «existencial» pode ser usado de três maneiras:

  • para referir a existência em si mesma, isto é, o modo especificamente humano de ser;
  • para referir o sentido da existência;
  • para referir o esforço para descobrir um sentido concreto na existência pessoal, ou seja, a vontade de sentido.
Neuroses noogénicas

As neuroses noogénicas não resultam de conflitos entre impulsos e instintos, mas sim de problemas existenciais.

A preocupação de uma pessoa, ou até mesmo o seu desespero, para saber se a vida vale a pena é uma angústia existencial, mas não é de forma alguma uma doença mental.

O sentido da vida

Colocar a questão em termos gerais seria comparável a perguntar a um campeão de xadrez: «Diga-me, mestre, qual é a melhor jogada do mundo?» Pura e simplesmente não existe a melhor jogada, ou sequer uma boa jogada, independentemente de uma situação particular de um jogo e da personalidade particular de um opositor.

Em última instância, o Homem não deveria perguntar qual é o sentido da vida, mas antes reconhecer que é ele quem se vê interpelado. Numa palavra, cada pessoa é questionada pela vida; e à vida cada um pode apenas responder sendo responsável. Deste modo, a logoterapia encara a responsabilização como sendo a própria essência da existência humana.

A essência da existência

Esta ênfase na responsabilização está refletida no imperativo categórico da logoterapia, a saber:

«Vive como se estivesses já a viver pela segunda vez e como se tivesses agido da primeira vez de forma tão errada como estás à beira de fazer agora!»

A logoterapia não é nem ensinar nem pregar. Está tão afastada do raciocínio lógico como da exortação moral. Se quisermos dizer as coisas figurativamente, o papel desempenhado pelo logoterapeuta é mais o de oftalmologista do que o de pintor.

Este tenta transmitir-nos uma imagem do mundo tal como o vê; um oftalmologista tenta que consigamos ver o mundo tal como realmente é. O papel do logoterapeuta consiste em alargar e ampliar o campo visual do paciente, de modo a que todo o espetro de sentido potencial se torne consciente e visível para ele.

 

 

Segundo a logoterapia, podemos descobrir este sentido de três formas diferentes:

  • Criando uma obra ou praticando uma façanha;
  • Vivendo uma experiência ou encontrando alguém;
  • Por meio da atitude que assumimos ante um sofrimento inevitável

De certa forma, o sofrimento deixa de o ser no momento em que se lhe descobre um sentido, tal de um sacrifício.

Edith Weisskopf-Joelson, que foi professora de psicologia na Universidade da Georgia, defendeu, no seu artigo sobre logoterapia, que «a filosofia atual sobre higiene mental sublinha a ideia de que as pessoas deveriam ser felizes, que a infelicidade é um sintoma de desajustamento.»

Um tal sistema de valores pode ser responsável pelo facto do fardo da infelicidade inevitável se ver aumentado pela infelicidade de nos sentirmos infelizes».

«Ele não se sente apenas infeliz, mas também envergonhado por estar infeliz»

 

 

Logoterapia enquanto técnica

O procedimento consiste numa inversão da atitude do paciente, na medida em que o seu medo é substituído por um desejo paradoxal. Com este tratamento, retira-se o vento das velas da ansiedade.

Contudo, este procedimento tem de recorrer à capacidade especificamente humana de auto distanciamento inerente ao sentido de humor. Esta capacidade essencial de nos distanciarmos de nós mesmos é posta em prática sempre que é aplicada a técnica logoterapêutica designada intenção paradoxal.

O medo da insónia tem como resultado uma intenção excessiva de querer dormir.

A intenção paradoxal não é uma panaceia. Apesar disso, é uma ferramenta útil no tratamento de estados fóbicos e obsessivos-compulsivos, especialmente em casos de ansiedade antecipatória subjacente.

É, além disso, um dispositivo terapêutico de curto prazo. No entanto, não devemos concluir daí que uma tal terapia de curto prazo tem somente resultados terapêuticos temporários.

Em defesa de um otimismo trágico

Comecemos por nos perguntar o que se deve entender por «otimismo trágico».

De forma abreviada, significa que uma pessoa é otimista, e continua sempre a sê-lo, independentemente da «tríade trágica». Como é designada na logoterapia, uma tríade que consiste naqueles aspetos da existência humana que podem ser circunscritos por:

  1. Dor;
  2. Culpa;
  3. Morte.

De facto, este capítulo levanta a questão: Como é possível dizer sim à vida apesar de tudo isso?

Para colocar a questão de forma diferente:

“Pode a vida reter o seu potencial de sentido apesar dos aspetos trágicos?”

Afinal de contas, «dizer sim à vida apesar de tudo», para usar uma frase na qual se inspirou o título de um livro meu publicado em alemão, pressupõe que a vida tem potencialmente significado em quaisquer circunstâncias, mesmo nas mais miseráveis.

E isto pressupõe, por seu lado, a capacidade humana de transformar criativamente os aspetos negativos da vida em algo positivo e construtivo.

Por outras palavras, o que importa é conseguir o melhor de qualquer situação.

«O melhor» é, no entanto, aquilo que em latim se refere como optimum – daí falar de um otimismo trágico, isto é, de um otimismo ante a tragédia e em vista do potencial humano que, quando no seu melhor, permite sempre:

  1. Transformar o sofrimento em realização e aperfeiçoamento humano;
  2. Retirar da culpa a oportunidade de nos mudarmos para melhor;
  3. Retirar da transitoriedade da vida um incentivo para levar a cabo ações responsáveis.

Mas a felicidade não pode ser procurada; tem de resultar de algo. Uma pessoa tem de ter uma razão para «estar feliz».

Esta necessidade de uma razão é semelhante noutro fenómeno especificamente humano: o riso. Se queremos que alguém se ria temos de lhe dar uma razão. Temos, por exemplo, de contar uma anedota.

 

“Quanto à causa do sentimento de falta de sentido, podemos dizer, embora de maneira muito simplificada, que as pessoas têm muito com que viver mas nada pelo que viver; possuem os meios mas não têm um sentido”


Como ensina a logoterapia, há três vias principais que nos conduzem ao sentido da vida.

  1. A primeira delas consiste em criar uma obra ou realizar um feito.
  2. A segunda consiste em viver uma experiência marcante ou encontrar uma pessoa especial; por outras palavras, o sentido pode ser encontrado não somente no trabalho mas também no amor.

Edith Weisskopf-Joelson observou, neste contexto, que a noção logoterapêutica de que «viver u

ma experiência pode ter tanto valor como alcançar alguma coisa tem um efeito terapêutico, porque compensa a nossa ênfase assimétrica no mundo exterior das realizações à custa do mundo interior das experiências».

  1. Mesmo a vítima indefesa de uma situação irremediável, colocada ante um destino que não pode mudar, pode erguer-se acima de si mesma, pode crescer para além de si mesma, e desse modo mudar quem é. Pode transformar uma tragédia pessoal numa vitória.

 

Uma vez mais, foi Edith Weisskopf-Joelson quem, como referi no capítulo sobre o sentido do sofrimento, expressou uma vez a esperança de que a logoterapia «possa ajudar a contrariar algumas tendências pouco saudáveis da cultura atual dos EUA, onde o doente incurável tem escassas oportunidades de sentir orgulho no seu sofrimento e de o considerar enobrecedor em vez de degradante», de tal modo que «ele sente-se não só infeliz, como também envergonhado por estar infeliz».

 

Conclusão

“Tudo o que é ilustre é tão difícil quanto raro” Espinosa

“Pode perguntar-se o leitor, naturalmente, se será realmente necessário falar de «santos». Não seria suficiente referir as pessoas decentes? É certo que estas constituem uma minoria. E, contudo, encaro esse facto como um desafio a engrossar a minoria. Pois o mundo está em muito mau estado, mas tudo se tornará ainda pior se cada um de nós não der o seu melhor.

Por isso, estejamos atentos – e atentos num duplo sentido:

Desde Auschwitz sabemos do que o Homem é capaz.

E desde Hiroshima sabemos o que está em jogo.”

 

Primeira parte – O Homem em Busca de um Sentido – Livro por Viktor Frankl

O Homem em Busca de um Sentido – Livro por Viktor Frankl

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