“Apanha-me se puderes” Análise

“Apanha-me se puderes” ou “Catch me if you can” é um filme sobre um miúdo de 15 anos que foge de casa e põe em prática uma das maiores fraudes de história dos E.U.A.

Este consegue fazer-se passar por piloto de avião, professor, médico e fugir diversas vezes da prisão.

O filme de 2002, baseado na historia verídica de Frank W. Abagnale.

Ao longo da sua carreira este conseguiu um total de 2,5 milhões de dólares em cheques falsos, o que corresponde nos dias de hoje a algo como 16,5 milhões de dólares.

Impressionante visto que a sua carreira acabou aos 21 anos de idade.

O que vamos ver hoje, é como pode que alguém tão jovem consegue enganar tantas pessoas ao longo de vários anos.

 

Manipular ok, mas o quê?

“Dois pequenos ratos caem num balde cheio de creme,

o primeiro rapidamente desiste e afoga-se,

mas o segundo não podia desistir, ele lutou tanto que

acabou por transformar o creme em manteiga”

Ao vermos o filme, podemos realizar que qualquer pessoa seria enganada pelo personagem. No entanto, ele não te diz nada de especial, no máximo usa um pouco do seu charme, mas nada que se pareça com manipulação da mente.

Isto é porque Abagnale não manipula a mente, mas as tuas percepções. Em outros termos ele não manipula a pessoa, mas o contexto.

Segundo 38

 

Nesta cena há vários elementos que entram em jogo:

  1. Ele possui um uniforme;
  2. Ele conhece o jargão dos pilotos;
  3. Comporta-se com confiança,
  4. Os pilotos têm certos direitos (como usar o 3º lugar de piloto gratuitamente);
  5. Os pilotos são sempre tratados com cortesia.

 

O contexto dita que Abagnale parece um piloto, logo ele é um piloto, logo é tratado como tal.

O ponto crítico aqui é: se criares as boas condições, não precisas de manipular a mente das pessoas, elas próprias vão fazê-lo sozinhas.

 

Poder do Uniforme

O psicólogo Leonard Bickman fez diversos estudos sobre o poder da farda sobre as pessoas.

Algumas das suas experiências funcionavam da seguinte forma:

(Um grupo com farda vs grupo sem farda) a fim de comparar resultados

Procedimento: fazer pedidos estranhos a pessoas na rua.

-Apanhar um lixo do chão.

-Pedir 10 cêntimos a alguém para um homem que não tinha dinheiro para o parquímetro.

Resultados: as pessoas obedeciam muito mais quando o pedido era efetuado por alguém com uniforme.

 

Análise

Temos aqui casos em que a autoridade conferida pelo uniforme ultrapassa os limites ditados pela lógica.

Um guarda tem autoridade para te revistar a mochila numa loja, ou de te expulsar do cinema se perturbares os utentes.

Mas em quê é que essa autoridade se estende a pedir dinheiro? Na lógica não tem sentido, mas na prática o nosso cérebro não define muito bem limites, e acaba por misturar um pouco tudo.

O golpe de génio

Deixei a melhor parte para o fim.

O agente do FBI descobre que Abagnale ainda está no seu motel e apressa-se para ir detê-lo.

O truque usado aqui é o Pattern Interrupt.

O agente do FBI está numa situação que poderíamos chamar “Deter um criminoso”.

O que é esperado aqui é que perante uma pistola apontada contra ele, o sujeito tome umas das opções: render-se ou fugir.

No entanto, Abagnale não se comporta como esperado. O agente depara-se então com um homem de fato e gravata que se lança num monólogo.

Isso rompe a expetativa e o padrão do agente do FBI que fica imediatamente confuso.

O nosso cérebro odeia a incerteza, a confusão, e assim que entramos neste estado, fazemos tudo para encontrar uma explicação.

Após a confusão introduzida pelo nosso génio da manipulação, este só tem que oferecer aquilo que o agente do FBI mais deseja, explicações, informações, a fim de este perceber o que se está a passar.

O agente pede a identificação do sujeito, e a única maneira de este se safar é usar o truque mais velho do mundo, a distracção. Expondo-lhe de seguida ainda pormenores visuais flagrantes.

A imagem, a história, começa a entrar na cabeça do agente, mesmo que este não queira acreditar nela.

Como golpe final, Abagnele pede a identificação ao agente, ou seja, conseguimos fazer transitar de uma situação “Deter um criminoso” a uma situação familiar “Encontro entre dois colegas”.

 

Frederico Quelhas, Psico(lógico).

 

 

 

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