Getting over it, muito mais que um jogo.

Como sou um pouco masoquista, na minha passagem de ano decidi não sair e alcoolizar-me como é culturalmente recomendado. Em vez disso,  decidi jogar “Getting over it bennett foddy” durante o réveillon.

 

Getting over it é um jogo de um homem num pote com um martelo, no qual a tua missão é escalar até ao topo da montanha.

Deixo-vos um trailer mais ilustrativo.

Mais uma vez, fiz uma má avaliação do meu desafio, pois pensava acabar o jogo numa noite. No entanto, consegui, com orgulho, acabar no dia 2 de Janeiro às 16h11, fazendo assim parte dos 3,1% da população que comprou e acabou o jogo uma vez.

Na minha opinião, o jogo tem uma interpretação profundamente pessoal, daí o apresentar, na esperança que alguns de vocês tenham a coragem de querer chegar ao topo da montanha.

Bem, se ficaste convencido podes comprar o jogo (7,99$ na steam), e assim, por favor não leias o resto do texto por agora, vem cá apenas quando tiveres acabado, não quero influenciar a tua experiência e gostaria imenso que depois, caso queiras, partilhes a tua experiência connosco.

Avisos e apresentações feitas, vamos ao que retiro do jogo.

 

De tortura a uma orgulhosa e humilde felicidade

Ao longo da caminhada, a minha mente passou por diversas fases. Isto é algo que apenas pude consciencializar após passar por todas elas.

A fim de terem noção da prova, fiz 22 horas de jogo para conseguir acabar.

 

1ª Fase- Frustração, desespero, incompreensão

Esta é a fase da tortura, onde demoras 35 minutos a subir encosta, para passado 1 minutos caíres até ao início do jogo.

 

“Não há sentimento mais intenso do que recomeçar.”

“Oof… perdeste imenso progresso. Aquela profunda frustração. Um verdadeiro murro na barriga”

 

Tu odeias o jogo, ele é mau, ele é difícil, inumano, filho de certas raparigas, o diabo em pessoa.

Um murro no estômago a cada queda, raiva, desespero, uma total falta de respeito.

Esta fase durou as primeiras 6/8 horas da minha experiência de jogo.

 

“A falha não é a queda, mas ficar em baixo” -Mary Pickford

2ª Fase- Acalmar e analisar, tentativa erro

 

“Neste momento não acreditas que te vais sentir melhor. Mas isso não é verdade. Tens a certeza que vais voltar a ser feliz. Saber isso e acreditar, tornar-te-á menos miserável agora” Abraham Lincoln

 

Existem partes do mapa que achamos difíceis no inicio. Porem após caíres cerca de 50 vezes e teres de repetir esse lugar particularmente difícil começas a entender que isso vai acontecer mais vezes ainda, então treinas a técnica específica daquele obstáculo.

Pois se o conseguires superar apenas de forma aleatória após 15 minutos de try hard, nunca mais vais acabar o jogo.

Então estudas meticulosamente o difícil até o tornares relativamente fácil. Fragmentas em pequenas partes os movimentos que deves fazer e testas as tuas hipóteses.

Deixas de ser um estúpido hiperativo que está para ali a bater com o martelo em todo o lado e ficas imóvel.

Visualizas o movimento que estás a testar

Tentas

Falhas

Outra vez

Tentas

Falhas

Ok ok, talvez não seja essa a solução, vamos tentar outra coisa. É como uma experiência científica.

Estranha e rapidamente, percebes como passas pelo obstáculo. Descobres assim uma técnica única que te garante para sempre a passagem e que podes usar em outras partes do mapa.

A partir daqui é só continuar o trabalho.

3ª Fase- Flow

 

Curiosamente, é impossível chegar a determinada parte do mapa, cerca de 75%, sem possuir uma agradável mestria nos movimentos.

Chegado a esse nível, uma certa calma invade-te. Percebes que na primeira fase, eras apenas um choramingas, que queria as coisas sem te esforçar ao máximo.

Neste momento, dominas a técnicas e as competências para os desafios que se seguem.

Alcançámos um certo patamar, estamos perto do fim.

No obstáculo, estás calmo e 100% concentrado no teu movimento. A tua mente está calada. O teu foco está afiado.

Tens que aprender algumas coisas novas e dominar na perfeição tudo aquilo que já sabes. E como diz o próprio jogo

 

“Agora que aprendeste a caminhar, não há mais onde ir a não ser para cima…”

 

Interpretação geral do jogo

“Viver é sofrer, sobreviver é encontrar algum significado no sofrimento”. -Friedrich Nietzsche

 

Esta é uma das citações que o narrador repete por vezes durante o jogo. Na verdade, quando estás chateado e frustrado pensas que tudo o que ele te vai dizendo é apenas sarcástico ou fracamente motivacional.

Durante o jogo não interpretas a frase como um conselho, pois ela não o é em si. Mas foi quando cheguei à 3ª fase que percebi que a estava a realizar.

  • Cada grande queda, representava o jogo a dizer-me que não tinha aprendido as bases, e que tinha que ir rever os princípios técnicos do jogo.
  • Cair estupidamente numa parte que dominas era uma falta de respeito da minha parte para com o obstáculo.
  • Após conseguir algumas vezes ultrapassar um obstáculo, significava que talvez tivesse conseguido aprender a lição.

Deixas de choramingar, calas-te, e tentas entender aquilo que te estão a ensinar.

É uma aprendizagem subtil, que somente tu te podes ensinar.

O jogo não fala, não te dá conselhos. É a tua mente que tem de entender e mostrar perícia, se lhe deres tempo e tentativas suficientes.

No final do jogo, há apenas uma antena a escalar.

Estava já a tentar subir à cerca de 7/8 minutos, quando me veio o sentimento:

“Tu ainda não mereces passar isso”.

Senti que se conseguisse, era injusto, pois se caísse, ia ser um pouco difícil voltar à antena. O que significava que ainda não dominava realmente o jogo, e por isso não merecia acabá-lo.

 

Não sei se foi uma boa análise ou se me autossabotei.

Mas caí da antena pouco depois, tive que batalhar na parte difícil repetidas vezes e dominá-la para atingir o topo.

“Uma laranja é uma fruta doce e suculenta trancada dentro de uma casca amarga.

Não é assim que eu me sinto sobre um desafio.

Eu só quero a amargura, o café, a toranja e o alcaçuz”. -Bennett Foddy

 

Pequenas coisas

Era arrepiante o medo que me invadia quando chegava a um novo obstáculo pela primeira vez.

Ficava paralisado.

Sabia que se caísse teria que recomeçar.

E sabia que ia cair, que nunca se passa por um obstáculo à primeira e sem cair e repetir.

Queda.

Frustração

Outra vez 15 minutos a dar tudo para chegar aquele sítio.

Conseguia um pouco mais alto desta vez.

Queda

10 minutos de work hard para chegar lá mais uma vez.

Queda estúpida.

Atinges um ponto, em que já te estás totalmente nas tintas se vais cair ou não, porque sabes que passado 5 minutos vais lá estar outra vez pronto a tentar.

As quedas já não doem, e cada novo centímetro que alcanças é saboroso, por muito que a montanha não queira, tu estás a conquistá-la,  já só tens fome de conseguir.

O medo titanesco que tinha a primeira vez que vi o obstáculo  desapareceu. Já me debati com o obstáculo inúmeras vezes, já o conheço. Já não o temo, mas respeito-o pelo quanto me fez crescer.

Quando ouves as histórias de grandes personalidades do mundo, é comum que elas tenham tido uma fase de pura miséria.

Sem abrigos, sem ninguém, sem dinheiro. E PUM!!!

Atualmente são génios e milionários.

Talvez beijar o chão te ensine o segredo do sucesso?

Talvez o segredo do sucesso esteja no fundo do poço que ninguém quer atingir?

Como se a dor esculpisse o diamante que há em ti.

Tu és uma jóia, a dor revela-te a ti mesmo.

Quando já não tens nada, a não ser tu próprio, talvez percebas que é tudo o que necessitas.

O sucesso não está na altura da montanha que escalaste, mas na tua capacidade a subi-la, e essa capacidade, ninguém te a pode retirar, não é o que possuis ou fizeste, é o que és.

 

Conclusão

São imensas as metáforas que podemos trazer para a vida real. Passar este jogo vai certamente ser das coisas mais difíceis que vais fazer durante um tempo.

Foste um mimado, por tudo o que tiveste sem o merecer.

Mas agora sabes a força profunda que existe em ti.

Estás imune à dor.

Ninguém te pode magoar tanto como já te magoaste.

E quando já não tens medo de nada, tudo se torna possível.

 

Pára de ter medo, de não te quereres magoar. É a forma mais sábia de aprendizagem

“No fim, só lamentamos as oportunidades que não tomámos” Lewis Caroll

 

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