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A psicologia positiva não é o que tu pensas

Introdução

Já ouviste certamente falar de psicologia positiva, também é muito provável que tenhas ficado com a ideia que isso é só sobre autoajuda fútil em que basta pensar que tudo é possível. Bem, não é isso.

A psicologia positiva não é uma filosofia de carp diem, mas o seu objetivo é dar-te estratégias concretas para te melhorares.

“O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas”

História

Em 1998. Martin E. P. Seligman como presidente da American psychological association introduz a psicologia positiva.

A ciência da experiência subjetiva, traços individuais positivos, e instituições positivas para melhorar a qualidade de vida e prevenir patologias que surgem quando a vida tem falta de sentido. (Seligman& Csikszentmihalyi, 2000). Seligman afirmava que a psicologia se incidia demasiado o seu foco nas patologias.

Mike Csikszentmihalyi e Seligman elaboraram 3 objetivos para a psicologia:

· Trabalhar tanto com os pontos fortes do ser humano quanto com as suas fraquezas;

· Estar tão interessada em desenvolver pontos fortes como a consertar os danos;

· Dedicar-se a tornar a vida das pessoas mais gratificantes, desenvolver genialidade, promover talentos.

Pilares da psicologia positiva

A psicologia positiva tem desenvolvido várias investigações empíricas com base em métodos científicos rigorosos. São identificados 3 pilares importantes da investigação nesta perspetiva (Seligman (2003,) cit.in 2007, Simone dos Santos Paludo & Sílvia Helena Koller), que são:

  • experiência subjetiva;
  • características individuais – forças pessoais e virtudes;
  • instituições e comunidades.

No que diz respeito à experiência subjetiva esta relaciona-se com o bem-estar subjetivo, experiências positivas e emoções positivas, ocorridas no passado, bem como com aspetos como a felicidade e a transcendência – flow, no presente e com sentimentos de esperança e otimismo no futuro.

Já no que diz respeito às características individuais – Forças pessoais e virtudes – destacam-se estudos relacionados com as capacidades para o afeto, o perdão, a espiritualidade, o talento e a sabedoria. Por fim, no âmbito do funcionamento dos grupos, os estudos analisam virtudes cívicas e instituições que possibilitam transformações nos indivíduos para os melhorar enquanto cidadãos, salientando-se a responsabilidade, o altruísmo, a tolerância e a ética no trabalho. (Diener, 2000) Frederickson, 2002); (Myers, 2000; Nakamura & Csikszentmihalyi, 2002; Seligman & Csikszentmihalyi, 2000); (Carver & Scheier, 2002; Snyder, Rand & Sigmon, 2002); (Hendrick & Hendrick, 2002), (McCullough & Witvliet, 2002); (Pargament & Mahoney, 2002); (Baltes, Gluck & Kunzmann, 2002); (Turner, Barling & Zacharatos, 2002); (Handelsman, Knapp & Gottlieb, 2002) cit.in. (Barbara L. Fredrickson, 2013).

Mito 1 – As pessoas só querem aumentar as emoções positivas

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As emoções alertam-nos para aquilo que é importante no contexto/ambiente no qual estamos inseridos, qual o melhor comportamento a seguir numa situação particular (as emoções despoletadas são muito mais focalizadas na nossa sobrevivência do que com o nosso sucesso numa tarefa. Ex: estar exageradamente ansioso antes de uma apresentação oral).

Para compreender a motivação humana, é necessário ir além da crença errada que, em geral, as pessoas preferem emoções agradáveis em vez de emoções desagradáveis

Um exemplo bem claro; imagine a situação seguinte:

1- Estás a passear tranquilamente na montanha, relaxado e a apreciar a beleza da paisagem diante ti.

De súbito, um enorme urso surge mesmo à frente do teu nariz

Se nos basearmos no mito que as pessoas apenas querem aumentar as suas emoções positivas, e ignorar ou “bloquear” as emoções menos agradáveis que naturalmente te serão despoletadas, haveria 4 possíveis pensamentos/atitudes diante desse urso.

A Pensar positivo, ele nem me viu.

B Ele de certeza que não me vai atacar.

C Com sorte, ainda ficamos amigos!

D Aposto que ele só quer brincar.

Se escolheste alguma destas opções, então estás certamente bem morto e despedaçado na hora atual.

(Irás acabar como o Dicaprio no “The revenant”)

As boas opções seriam luta ou fuga. Estas seriam sem dúvida as emoções que o teu cérebro te teria despoletado assim que tivesses visto o urso.

Conclusão:

Mito 1 é erróneo, pois as emoções acima citadas representam alertas, uma orientação do nosso cérebro pois este analisa a situação e te diz o que deves fazer.

Talvez o mais importante aqui a acrescentar é que as pessoas que conseguem ativar e regular a sua raiva por antecipação a uma situação de confronto demonstram melhor desempenho.

Devemos sempre ter em conta o que sentimos, o nosso cérebro não te diria “corre pela tua vida” só pelo prazer de te ver correr. Por vezes uma situação irá necessitar uma determinada estratégia de regulação para, por exemplo, aumentar a eficácia da atenção, julgamento, comportamento interpessoal.

Mito 2 – Estratégia de regulação emocional podem ser classificadas como saudáveis ou não saudáveis.

O facto de seguir a filosofia do “pensar positivo” ou ver sempre o bom lado das coisas tem evidentemente as suas vantagens, pois aumenta as emoções positivas.

Se considerarmos a pratica do Savoring ( traduzindo isto de maneira simbólica, pode ser visto como “saborear o momento”). Esta é uma estratégia de regulação de emoções destinada a aumentar a intensidade ou a duração das emoções positivas.

Aplicar essa filosofia merece cuidado conforme a intensidade do momento.

  • Em situações emocionais menos intensas, o objetivo da reavaliação cognitiva (reformular a história na tua cabeça para ver o bom lado das situações) é atraente porque as emoções e a informação emocional é tratada, lembrada e guardada de uma maneira consistente com um sentido preferido de significado.

Quando és confrontado com um problema ou uma situação particularmente complexa, a escolha entre interpretações múltiplas e frequentemente contraditórias de uma situação exige o esgotamento de recursos cognitivos como a atenção e a energia.

  • Em situações emocionalmente intensas (como uma rejeição), a distração precoce pode ser atraente pois as emoções podem ser inibidas/camufladas antes de ganhar dimensão e tornar-se esmagadora. O ato de distração pode ser simples como aumentar o volume da música com fim de redirecionar a atenção longe da crescente tensão fisiológica no corpo. No entanto o custo será a incapacidade de processar, lembrar e aproveitar a informação emocional. Esta situação é problemática porque sem a aprendizagem de estas situações emocionais intensas, a capacidade de melhorar desempenhos, expandir conhecimento e de perseverar nos objetivos a longo prazo ficam comprometidas.

É necessário enfrentar as provas da vida. É assim que aprendemos, que nos tornamos melhores, é aprender o erro, desse modo, quando uma situação idêntica se repetir, terás uma resposta para ela. Se apenas fugires, a mesma situação irá repetir-se inúmeras vezes e não saberás reagir a todas elas.

Ouvi esta frase uma vez algures “Quando a história se repete, é porque ainda não aprendeste a lição”. Podemos, igualmente, juntar esta “tu não podes cometer o mesmo erro duas vezes, a segunda vez não é um erro, é uma escolha”, e agora concluímos com “esqueça o erro, mas lembre-se da lição”.

Arriscas-te a entrar num ciclo vicioso perigoso, primeiro irás ter medo, de seguida fugir da situação, depois de todas as situações do mesmo tipo, e ficarás então bloqueado nessa bola de neve.

Quase todas as estratégias de regulação de emoções que são aparentemente boas para a saúde podem ser utilizadas de forma incorreta numa tentativa de evitar o contacto com pensamentos não desejados, sentimentos, sensações ou memórias (evitamento da experiência).

Outras estratégias que podem ser utilizadas, por exemplo um que atualmente está a ganhar fama é o mindfulness, que pode ser utilizado como uma ferramenta para inibir o stress. Mas estratégias como a exercício físico, a sexo íntimo, e tocar música podem ser utilizados numa tentativa de aumentar as emoções positivas e ao mesmo tempo evitar a dor emocional. Por estas razões, os conhecimentos sobre estratégia para regular as emoções devem ser associados com um motivo por trás da ação.

Conclusão

Em primeiro lugar, como pudeste ver, psicologia positiva não te vai dizer para ser um tolo cego que acredita que tudo corre bem.

Rejeitar as emoções é uma ideia muito má, pois todas elas ficaram enterradas na vossa cabeça e voltaram à carga inúmeras vezes ao longo da tua vida, é porque estão por resolver. No entanto, saborear e aumentar as tuas emoções positivas é uma super estratégia para te sentires melhor e mais feliz, e talvez te dar um boost a meio do dia.

Para te tornares mestre da tua felicidade tens que ficar forte, para ficar emocionalmente forte tens que enfrentar os desafios da tua vida. Se é fácil? Não, ou todo o mundo seria perfeitamente feliz uns com os outros, e se fosse demasiado fácil, onde estaria o entusiamo da vida?

Os teus problemas e a tua confiança vão crescendo em paralelo. Serão as cicatrizes das tuas lutas que te darão a confiança para enfrentar mais. Depois de enfrentares o granizo, levares com neve na cara vai ser “canja”. Se resolveres os teus problemas poderás seguir e focar-te naquilo que queres, sem te sentires restringido por medos que apenas criam impasses.

Vive a tua aventura, pois uma vida bloqueada numa gruta de medos será apenas veneno para ti. Sai da gruta escura e descobre a floresta que está do lado de fora, bem em frente dos teus olhos. Depois da floresta, explora o mundo para além dela. Então um dia mais tarde a gruta escura irá parecer-te bem distante e triste. Conhecerás pessoas que viveram para sempre na gruta, e poderás assim ser um exemplo para eles, e lhes dizer “a vida não é só isto, a vida é bué cenas”, poderás contar-lhes de tudo o que enfrentaste, ultrapassaste, e num sincero sentimento de alívio e liberdade, dizer em conhecimento de causa, que a gruta representa uma parte bem minúscula em relação a tudo o que o mundo te pode oferecer.

1. Barbara L. Fredrickson, Positive Emotions Broaden and Build,(2013). Advances in Experimental Social Psychology, Vol. 47. Burlington: Academic Press,

2. Karen Stansberry Beard (2014). Theoretically Speaking: An Interview with Mihaly Csikszentmihalyi on Flow Theory Development and Its Usefulness in Addressing Contemporary Challenges in Education

3. Simone dos Santos Paludo & Sílvia Helena Koller (2007). Psicologia Positiva: uma nova abordagem para antigas questões.

4. Seligman (2000). Positive Psychology, Positive Prevention, and Positive Therapy

5. Seligman, M., & Csikszentmihalyi, M. (2000). Positive psychology: An introduction. American Psychologist, 55, 5-14.

6. Seligman, (2004). The new era of positive psychology. Retirado de https://www.ted.com/talks/martin_seligman_on_the_state_of_psychology

7. Todd B Kashdan, Kevin C Young and Kyla A Machell(2015). Positive emotion regulation: addressing two myths. Current Opinion in Psychology 2015, 3:117–121

8. Gaëlle Desbordes, Lobsang T. Negi , ThaddeusW.W. Pace , B. AlanWallace , Charles L. Raison and Eric L. Schwartz (November 2012) “Effects ofmindful-attention and compassion meditation training on amygdala response to emotional stimuli in an ordinary, non-meditative state” Frontiers in Human Neuroscience ,volume 6

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  • Tenciono aprofundar o tema, e dar ferramentas mais concretas em próximos artigos. Por favor não hesitem em me darem a vossa opinião, dizer-me que reflectiram sobre o tema, se houver qualquer questão, obrigado.

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